sexta-feira, 19 de abril de 2019

MANIFESTO AOS SESSENTA


Daqui dois meses faço sessenta anos.
Ontem, pensando nisso, fiquei muito triste, até mesmo acabrunhado.
Na minha cabeça, minha vida não havia valido a pena.
Fui dormir entristecido e tive um sonho.
Um sonho às margens de uma cachoeira linda, de águas translúcidas.
Conheço muitas cachoeiras, nunca havia visto uma igual.
Nesta cachoeira havia uma Vênus e um garoto.
Ambos nus e felizes. E havia eu.
Talvez o garoto fosse eu mesmo. E a Vênus a vida.
Talvez a Vênus fosse a junção das mulheres que me deram seu amor.
Maravilhosas mulheres que me ensinaram a viver.
Me ensinaram a chorar e a rir e a cantar e a sonhar...
Com cada uma delas eu aprendi alguma coisa boa.
E como diz o belo samba de Roberto Ribeiro:
— Perdi a conta das mulheres que beijei.

Mas agora cheguei ao sessenta.
O sonho me mostrou a felicidade da infância.
Quanta liberdade desfrutei nos quintais cosmoramenses!
Penso que pouca gente teve uma infância tão livre.
Foi sim uma infância pobre e difícil, mas foi ela que me moldou.
Moldou meu caráter, amalgamou em mim o sentido da gratidão.
A adolescência em Cosmorama foi a benção que Deus me deu.
Meus amigos e eu crescemos longe das drogas.
Tivemos uma formação lúdica, carregada de proteção familiar.
Comecei a trabalhar aos nove anos, vendendo verduras e sorvetes,
Engraxando sapatos, capinando quintais e fazendo pães...
Limpando cadeiras de cinema e varando lona de circos!
Jogando biroca, nadando em córregos e brigando e apanhando nas ruas!
Será que este tempo voltará um dia?
Jovem, fui ao footing, aos campos de futebol, às paqueras nos bailes!
Levei tábuas e tombos, aprendi a beber e a fumar para me enturmar.
Na madrugada, ouvindo rádio na padaria, aprendi a amar o samba.
Na roça, trabalhando de birolo (boia fria) aprendi a amar a música caipira.  
Com os amigos mais intelectualizados aprendi a amar a MPB.
Nos livros, aprendi a amar a música erudita.
Ah... os livros. Eles salvaram a minha vida.
Os livros estão na minha companhia desde os seis anos quando ganhei uma Revista Jacques Douglas.
Quem seria eu sem os livros?
Eles me ensinaram a falar e abriram as portas do mundo para eu viver.

Daqui dois meses eu faço sessenta anos.
O sonho com a Vênus me mostrou muito mais que isso.
Mostrou que a vida me deu muito mais do que eu pedi.
Como cantou Ataulfo Alves: eu era feliz e não sabia.
Aliás, sou muito mais feliz do que penso que sou.
E foi assim que surgiu este manifesto ao som de O Poder da Criação, de João Nogueira.
Sim. Sou feliz. Sou um homem com os pés em dois séculos.
Eu vivi toda a transformação do mundo atual.
Eu vi televisão em preto e branco.
Escrevi em máquina de escrever;
Fiz jornal em mimeógrafo.
Cópias com papel stencil (é assim que escreve?).
Ah... mas isso são apenas recordações de saudosismo.
Curto saudosismo apenas para contar histórias.
Eu sou isso: um contador de histórias.
Plantei árvores.
Tenho uma linda filha de inteligência ímpar.
Conheço o Brasil do Monte Caburaí ao Arroio do Chuí.
Menti. Traí.
Assim como mentiram para mim.
Traíram-me — em todos os sentidos.
Amei e sei que fui amado. E não uma única vez.
Chorei e fiz chorar.
Ri e fiz rir.
Ajudei e fui ajudado.
Roubei e matei.
Roubei em estado falimentar quando criança.
Matei um homem atropelado numa noite de chuva.
É uma nódoa que carrego na alma. E carregarei para sempre.
Vivi e morri muitas vidas nesta vida.
Corri riscos. Salvei pessoas. Fui salvo por pessoas.
Fui católico praticante. E fui ateu. E depois voltei a crer.
Frequentei botecos, zonas de meretrício, restaurantes chiques.
Partilhei momentos fantásticos neste caminho.
Deixei pessoas para trás, assim como também fui deixado.
Estive entre os poderosos e entre os mendigos.
Dormi em cinco estrelas e também em albergue noturno.
Lagosta, caviar, champange, talheres de prata e taças de cristal,
Cabo-de-reio, meio arroz ou nada na marmita feita de lata de goiabada...

Sonhei, sonho, sonharei...

Daqui a dois meses faço sessenta.
E sou daquelas pessoas que, de tanto viver, não se enxergam.
Eu não me enxergo velho; não me vejo entregando os pontos.
Se a doença não me tolher o caminho.
Se os acidentes não me virem por aí.
Se eu não esmorecer.
Se Deus me permitir, tenho ainda quinze anos de vida útil pela frente.
E quero fazer desses quinze anos uma vida em plenitude.
Efervescência. Florescência. Renascença. Tudo assim.
Grandes projetos e sonhos maiores ainda.
Cinquenta em quinze.
Quero sim, e este é o manifesto:
Viver cinquenta anos em quinze.
Novos sonhos. Novos planos.
Uma vida intensa e plena é o que quero.
E Deus quer.
E aos amigos, eu digo: venham, bebam e comam comigo.
Não tenham medo de serem felizes.
Aos meus inimigos eu ouso escrever um palavrão: Fodam-se.
Vocês não pagam minhas contam nem colocam comida na minha mesa.
Mas, tanto aos amigos quanto aos inimigos, eu peço: vivam e deixem viver.
A vida é curta e como cantou Vinicius: não sabemos se tem outra.

19 de abril de 2019 – 15h58  

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O cachorro preto



Recebi um vídeo sobre um cachorro preto que representa, de forma artística, a depressão.
Que horror é a depressão.
Que doença nefasta, que sordidez nossa mente produz!
É difícil aceitar que a depressão surge de dentro, do nosso mais recôndito âmago. A depressão é uma fruta podre no cesto de genes que nos dão a vida.
Dia desses perdi um primo para a depressão. Um jovem que se aniquilou em vida. Teve sua alma acorrentada por essa tristeza sem fim. Nada parece conter o fluxo infernal de depressão. É como se ela fosse realmente um enorme cachorro preto aprisionado, amarrado, acorrentado ao nosso pescoço.
Mateus foi embora, jovem triste que na tristeza se engolfou e nela se afogou.
Não, eu não quero cair novamente neste lago de águas pútridas e negras da depressão.
Quero amansar este cachorro preto e fazer dele um pinscher dócil. Prometo solenemente amansar esse cão.
Anseio pela vida. A vida em abundância. Quero andar, correr, ver o sol nascer e ver o sol se por. Quero me distanciar das energias ruins que me puxam para o lodo. Não quero mais chorar nem choramingar. Quero erguer a cabeça e estufar o peito; colocar o queixo na altura adequada aos homens de sucesso, nem para a arrogância nem para o coitadismo.
Minha hora é agora e eu sou um homem de ação. Um homem de ação não tem tempo para ficar lambendo feridas.  Como nos ensinou Dale Carnegie: um homem de ação ocupa a mente fazendo coisas, trabalhando, produzindo, ajudando, fazendo a roda da vida girar.
Adeus, cachorro preto nunca mais. Se ele aparecer de novo, vou colocar nele uma coleira e um cadeado e amarrá-lo bem longe do quintal da minha alma.



quarta-feira, 27 de março de 2019

Exposição mostra igrejas no Riopreto Shopping

Teve início hoje, às 10 horas da manhã, exposição fotográfica baseada no livro sobre os 90 anos da Diocese de São José do Rio Preto, de autoria do jornalista e historiador Lelé Arantes. São cerca de 70 fotografias das paróquias rio-pretenses e outras cidades da região, como Adolfo, Bady Bassitt, Bálsamo, Cedral, Guapiaçu, Jaci, José Bonifácio, Mirassol, Monte Aprazível, Neves Paulista, entre outras. A exposição foi idealizada e preparada pelo publicitário Cyrineu Massucato Jr. Está distribuída em totens localizados na entrada interna do shopping.
 No sábado, a partir das 10 horas, será oferecido um café da manhã com autógrafos dos livros. A exposição permanecerá aberta ao público até o dia 30.

Foto mostra a disposição dos totens da exposição. (Joyce Piccoli)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Coquetel de lançamento






Hoje, a partir das 19h30, faremos o lançamento do livro “História da Diocese de São José do Rio Preto – 90 Anos”, de nossa autoria em parceria com os jornalistas Donizete Della Latta, Marcelo Ferri e Michele Monte Mor. O livro, com 566 páginas, narra a história da diocese e das 70 paróquias que a compõe, além das instituições religiosas.

O lançamento acontece na Paróquia Menino Jesus de Praga, no bairro São Manoel, próximo ao Riopreto Shopping Center, com noite de autógrafos e coquetel. O evento contará com a presença do bispo diocese D. Tomé Ferreira da Silva, com entrada franca. O exemplar será vendido a R$ 100,00.

sábado, 9 de março de 2019

Cruéis são os homens




Sandrinha, 16 anos, matou-se enforcada.
Ivanete, 16 anos, matou-se, cortando os pulsos.
Leonice, 19 anos, após cinco anos de prostituição, “amigou-se” com o camioneiro, e enforcou-se quando descobriu que estava grávida e o parceiro não confiou na sua palavra.
Eram minhas amigas e até hoje, quanto lembro delas, eu fico com a impressão de que sou a única pessoa que lembra de suas existências.
Todas tiveram uma única motivação para buscar a morte como um fim para o seu sofrimento: amar um homem e dele engravidar.
O namorado da Sandrinha, arremedo de homem, fugiu para São Paulo quando recebeu a notícia da gravidez. Era órfã dos pais, morava com a avó, bastante idosa, e cuidava de um irmão menor.
Ivanete era uma menina criada no meio de uma ninhada de irmãos falastrões, temidos como violentos. Engravidou, o namorado deu no pé e, o medo de enfrentar os irmãos e o pai, a levou ao suicídio.
Leonice, sozinha no mundo desde a mais tenra infância. Sofreu todo tipo de abuso, tornou-se “biscate” como se dizia na época até ir morar com um dos seus clientes. Quando ela engravidou, ele a desprezou. Brigaram e ele foi viajar. Dias depois, os vizinhos sentiram o cheiro forte e chamaram a polícia. Havia quatro dias que ela estava dependurada na ponta de uma corda.
E me perguntam se sou a favor do aborto?
Acho que nenhum homem está preparado para tomar posição nesta questão. Porque nós, na maioria absoluta das vezes, somos os causadores desse tipo de tragédia, porque somos covardes, inumanos e cruéis com as mulheres. Seduzimos, usamos e fugimos.
Ontem fez 43 anos que Sandrinha foi encontrada morta, pendurada numa tira de pano de lençol. Prestes a completar 16 anos, eu ajudei segurar seu corpo quando o policial cortou a tira. E até hoje não consigo segurar as lágrimas quando sua imagem me vem à memória, seu rosto infantil e seu sorriso inocente.
Talvez, se elas tivessem tido o direito de abortar, elas estariam aqui, teriam construído uma família; teriam tido uma segunda chance.
Os calhordas vagabundos que as engravidaram fugiram dentro do anonimato. A pergunta que eu me faço é: será que eles conseguiram dormir e tocar a sua vida como se nada tivesse acontecido?

O título eu roubei de um filme de 1970, Skullduggery, com Burt Reynolds e direção de Gordon Douglas, baseado no romance de Les Animaux Dénaturés, de Jean Bruller.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Eutanásia



Não, não, não!
Não sou contra não.
Se tenho direito de viver,
Por que não tenho o direito de morrer?
Morrer quando eu querer (quiser!!!)
Morrer como eu desejar.
Morrer sem dor.
Morrer morrendo.
Não, o estado, o big brother, o grande olho
Não permite.
Não permite que eu morra pelas próprias mãos
Mas permite que me matem
De fome
De doenças
De indiferenças
De amor
Ah! O amor mata.
Mata sim.
Wir heissen euch hoffen.
Não, Simmel. Amar é morrer.
A eutanásia é só um atalho
Para o paraíso ou para o inferno.
Quem sabe!

Poesia de

Antonio Altino

domingo, 3 de março de 2019

Carnaval no Dai

Dai Cucina e Bar, na Andaló com Marechal Deodoro. Sábado de carnaval. Nada aqui lembra carnaval. A música é eletrônica e os cheiros misturam hortelã, maracujá e vodca ou gin ou rum... Continua sendo um bar. Um excelente bar com gente jovem nos servindo. A clientela é bem diversificada, porém com muita gente bonita.
Me sinto no Harry’s que Hemingway narra em um de seus livros ambientados em Veneza. Mas aqui não é Veneza. Só quando chove muito e a avenida Andaló inunda. Um arremedo grosseiro dos canais venezianos. O que me lembra o Veneziano, médico dermatologista que foi vereador. José Raymundo Veneziano, um pouco mais careca que eu. Dono de um belo bigode e de uma boa cultura política. Na política sempre militamos em campos opostos. Ele era de direita radical; e eu, da esquerda festiva, com pendores para uísque escocês (Cardhu, se possível ou qualquer malte uísque), caviar russo e champanhe francês. Todavia, me contentava com  um bom filé à parmegiana do San Remo.
Aqui no Dai já foi Berolli, jornal BomDia, foi Pratic, foi Mix e já foi uma linda casa de muros amarelos que esparramavam verde sobre a calçada da avenida. Velhos tempos de quando a Andaló era point dos desfiles da moçada, pessoas de carros e  motos fazendo as vezes de footing, o lugar da paquera. A Andaló era glamurosa.
De onde estou vejo todo o bar. Não são mais os trepidantes anos de 1980, época em que mal tínhamos um bom chope Antarctica... hoje temos cervejas artesanais. Chope Heineken, Amstel, Brahma e até Stella Artois! Os objetivos continuam os mesmos que é mostrar-se e ser mostrado. Queremos o mesmo de ontem: amar e ser amado. Como isso é tão difícil.
Observo o movimento. Vitória e Lucas fazem os drinques. Lindos drinques. Ele parece um maestro; ela é uma porta-bandeira. Vejo neles uma sintonia que está acima da divisão de espaço de trabalho. Há uma química linda entre eles. Bianca, Larissa, Paulo, Felipe, duas Julianas na falta de uma, Natália fazendo os doces, Fernanda tocando a cozinha... só pessoas lindas e dispostas ao trabalho.
Beberico meu chope enquanto meus olhos de jornalista tudo observam para alimentar a alma do historiador sentado ao balcão como um cliente apátrida e à parte.
E peço outro Heineken com três dedos de colarinho. Afinal, é sábado de carnaval. Sinto falta dos meus novos companheiros da noite: Eduardo e Camila. Ele está com dengue; ela foi namorar e eu estou dodói de uma saudade perpétua.
Enquanto o sono não chega e o chope não sobe, eu escrevo e me mergulho na saudade dos tempos antigos (trinta anos) e aspiro o cheiro gostoso da hortelã com vodca Absolut... peço outro chope e curto essa saudade perpétua que não sai de mim nem a fórceps.