segunda-feira, 18 de março de 2019

Coquetel de lançamento






Hoje, a partir das 19h30, faremos o lançamento do livro “História da Diocese de São José do Rio Preto – 90 Anos”, de nossa autoria em parceria com os jornalistas Donizete Della Latta, Marcelo Ferri e Michele Monte Mor. O livro, com 566 páginas, narra a história da diocese e das 70 paróquias que a compõe, além das instituições religiosas.

O lançamento acontece na Paróquia Menino Jesus de Praga, no bairro São Manoel, próximo ao Riopreto Shopping Center, com noite de autógrafos e coquetel. O evento contará com a presença do bispo diocese D. Tomé Ferreira da Silva, com entrada franca. O exemplar será vendido a R$ 100,00.

sábado, 9 de março de 2019

Cruéis são os homens




Sandrinha, 16 anos, matou-se enforcada.
Ivanete, 16 anos, matou-se, cortando os pulsos.
Leonice, 19 anos, após cinco anos de prostituição, “amigou-se” com o camioneiro, e enforcou-se quando descobriu que estava grávida e o parceiro não confiou na sua palavra.
Eram minhas amigas e até hoje, quanto lembro delas, eu fico com a impressão de que sou a única pessoa que lembra de suas existências.
Todas tiveram uma única motivação para buscar a morte como um fim para o seu sofrimento: amar um homem e dele engravidar.
O namorado da Sandrinha, arremedo de homem, fugiu para São Paulo quando recebeu a notícia da gravidez. Era órfã dos pais, morava com a avó, bastante idosa, e cuidava de um irmão menor.
Ivanete era uma menina criada no meio de uma ninhada de irmãos falastrões, temidos como violentos. Engravidou, o namorado deu no pé e, o medo de enfrentar os irmãos e o pai, a levou ao suicídio.
Leonice, sozinha no mundo desde a mais tenra infância. Sofreu todo tipo de abuso, tornou-se “biscate” como se dizia na época até ir morar com um dos seus clientes. Quando ela engravidou, ele a desprezou. Brigaram e ele foi viajar. Dias depois, os vizinhos sentiram o cheiro forte e chamaram a polícia. Havia quatro dias que ela estava dependurada na ponta de uma corda.
E me perguntam se sou a favor do aborto?
Acho que nenhum homem está preparado para tomar posição nesta questão. Porque nós, na maioria absoluta das vezes, somos os causadores desse tipo de tragédia, porque somos covardes, inumanos e cruéis com as mulheres. Seduzimos, usamos e fugimos.
Ontem fez 43 anos que Sandrinha foi encontrada morta, pendurada numa tira de pano de lençol. Prestes a completar 16 anos, eu ajudei segurar seu corpo quando o policial cortou a tira. E até hoje não consigo segurar as lágrimas quando sua imagem me vem à memória, seu rosto infantil e seu sorriso inocente.
Talvez, se elas tivessem tido o direito de abortar, elas estariam aqui, teriam construído uma família; teriam tido uma segunda chance.
Os calhordas vagabundos que as engravidaram fugiram dentro do anonimato. A pergunta que eu me faço é: será que eles conseguiram dormir e tocar a sua vida como se nada tivesse acontecido?

O título eu roubei de um filme de 1970, Skullduggery, com Burt Reynolds e direção de Gordon Douglas, baseado no romance de Les Animaux Dénaturés, de Jean Bruller.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Eutanásia



Não, não, não!
Não sou contra não.
Se tenho direito de viver,
Por que não tenho o direito de morrer?
Morrer quando eu querer (quiser!!!)
Morrer como eu desejar.
Morrer sem dor.
Morrer morrendo.
Não, o estado, o big brother, o grande olho
Não permite.
Não permite que eu morra pelas próprias mãos
Mas permite que me matem
De fome
De doenças
De indiferenças
De amor
Ah! O amor mata.
Mata sim.
Wir heissen euch hoffen.
Não, Simmel. Amar é morrer.
A eutanásia é só um atalho
Para o paraíso ou para o inferno.
Quem sabe!

Poesia de

Antonio Altino

domingo, 3 de março de 2019

Carnaval no Dai

Dai Cucina e Bar, na Andaló com Marechal Deodoro. Sábado de carnaval. Nada aqui lembra carnaval. A música é eletrônica e os cheiros misturam hortelã, maracujá e vodca ou gin ou rum... Continua sendo um bar. Um excelente bar com gente jovem nos servindo. A clientela é bem diversificada, porém com muita gente bonita.
Me sinto no Harry’s que Hemingway narra em um de seus livros ambientados em Veneza. Mas aqui não é Veneza. Só quando chove muito e a avenida Andaló inunda. Um arremedo grosseiro dos canais venezianos. O que me lembra o Veneziano, médico dermatologista que foi vereador. José Raymundo Veneziano, um pouco mais careca que eu. Dono de um belo bigode e de uma boa cultura política. Na política sempre militamos em campos opostos. Ele era de direita radical; e eu, da esquerda festiva, com pendores para uísque escocês (Cardhu, se possível ou qualquer malte uísque), caviar russo e champanhe francês. Todavia, me contentava com  um bom filé à parmegiana do San Remo.
Aqui no Dai já foi Berolli, jornal BomDia, foi Pratic, foi Mix e já foi uma linda casa de muros amarelos que esparramavam verde sobre a calçada da avenida. Velhos tempos de quando a Andaló era point dos desfiles da moçada, pessoas de carros e  motos fazendo as vezes de footing, o lugar da paquera. A Andaló era glamurosa.
De onde estou vejo todo o bar. Não são mais os trepidantes anos de 1980, época em que mal tínhamos um bom chope Antarctica... hoje temos cervejas artesanais. Chope Heineken, Amstel, Brahma e até Stella Artois! Os objetivos continuam os mesmos que é mostrar-se e ser mostrado. Queremos o mesmo de ontem: amar e ser amado. Como isso é tão difícil.
Observo o movimento. Vitória e Lucas fazem os drinques. Lindos drinques. Ele parece um maestro; ela é uma porta-bandeira. Vejo neles uma sintonia que está acima da divisão de espaço de trabalho. Há uma química linda entre eles. Bianca, Larissa, Paulo, Felipe, duas Julianas na falta de uma, Natália fazendo os doces, Fernanda tocando a cozinha... só pessoas lindas e dispostas ao trabalho.
Beberico meu chope enquanto meus olhos de jornalista tudo observam para alimentar a alma do historiador sentado ao balcão como um cliente apátrida e à parte.
E peço outro Heineken com três dedos de colarinho. Afinal, é sábado de carnaval. Sinto falta dos meus novos companheiros da noite: Eduardo e Camila. Ele está com dengue; ela foi namorar e eu estou dodói de uma saudade perpétua.
Enquanto o sono não chega e o chope não sobe, eu escrevo e me mergulho na saudade dos tempos antigos (trinta anos) e aspiro o cheiro gostoso da hortelã com vodca Absolut... peço outro chope e curto essa saudade perpétua que não sai de mim nem a fórceps.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Eles e nós:

Por Lelé Arantes




Pense comigo.

O que seria nosso mundo há 4 ou 7 milhões de anos?

Nessa época, segundo Richard Dawkins, viveu nosso 250.000º avô. Foi nessa época que encontramos nossos primos — ou seriam nossos irmãos? — chimpanzés.

Onde e como foi este encontro? Com certeza nos confins da África Subsaariana.

De um lado, chegando ao ponto de encontro, os hominídeos (ou seja, nós) e do outro, os chimpanzés que, 2 milhões de anos antes, tiveram seu encontro com os bonobos.

Houve uma grande guerra entre eles e nós ou, num linguajar chulo, uma grande suruba? Tomamos as fêmeas um dos outros à força? Aconteceu um carnaval de estupros e uma matança sem igual entre os machos? Ou simplesmente todos nós nos encantamos uns com os outros?

Certamente éramos peludos como eles e vivíamos ainda saltitando de galho em galho.

Que gene prevaleceu neste encontro? Richard Dawkins afirma que “Nós é que somos os singulares entre os grandes primatas, tanto vivos como fósseis”.

Após esse encontro, seguimos nosso caminho para a evolução, enquanto nossos primos-irmãos chimpanzés seguiram a linearidade. Teria sido neste momento que perdemos um cromossomo e ganhamos um polegar?

Ler o livro A Grande História da Evolução, de Richard Dawkins, é uma aventura que, como ele usa no subtítulo, nos coloca “na trilha dos nossos ancestrais”.

Leitura obrigatória para quem quer dar o primeiro passo para fazer sua árvore genealógica; pode ser que você não queira saber de onde está vindo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Laboratório do céu



Foi um ano muito bom aquele de 1979.

Um dos poucos que passei empregado o ano todo. Também foi o ano que o Skylab caiu. Talvez seja a primeira palavra que aprendi a falar em inglês: “iscailabi”.

Como foi chique aquele mês de julho com a gente olhando para os céus torcendo para cair um pedaço do Skylab em Cosmorama.

Seria notícia internacional.

Os comentários sobre a queda da geringonça espacial tomaram conta do imaginário popular, apesar de a vida ter continuado como se nada estivesse acontecendo. Nada estava acontecendo mesmo. Como diria o Gureba, nada abalava a tranquilidade da mesmice maravilhosa de Cosmorama. Nem a sucata gringa que vinha do espaço.

De lembrança do Skylab ficou um boteco que levou este nome por algum tempo em Cosmorama. Depois, veio o esquecimento.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Um homem muito simples

Foi uma noite bastante escura em Brasília.

Estávamos convidados para uma reunião com o senador José Sarney. Na pauta, a velha política maranhense. Seria uma reunião que poderia inclusive rolar um uísque ou uma cerveja, quem sabe. Final de expediente, cerca de oito horas da noite. Não tínhamos a mínima ideia de que como seria a recepção.

Um segurança nos recebeu na porta e nos colocou numa sala enorme. Construção rústica, como uma casa grande de fazenda emergida do século XVIII. A sala, que era realmente grande, estava atulhada de quadros, estatuetas e estátuas. Obras de arte, centenas delas. Caríssimas. Havia um único velho sofá de couro verdadeiro encostado na parede sob um quadro que lembrava Monet. Talvez até fosse. O sofá para duas pessoas; com ele, seriam quatro.

Percorri a sala com olhos ávidos. Havia ali várias telas de artes sacras e uma mesa quadrada também bastante grande e envelhecida, feita de madeira maciça. Fiquei pensando se era mogno ou quem sabe jacarandá.

Não tive muito tempo para vasculhar as obras. Logo chegou o senador José Sarney num impecável terno preto e sapatos brilhantes. Dava a impressão de que acabara de se levantar para ir ao Senado. Ele se sentou no sofá e cruzou as pernas. Virou-se para nós e disse, com uma sinceridade singular: — eu sou um homem de hábitos muito simples.

Ouvi aquela frase e fiquei esperando um leve sorriso por debaixo do bigode. Não veio. Assim como não veio sequer um copo de água gelada para os visitantes. Nem mesmo um cafezinho. A conversa foi rápida e vazia.

Estávamos diante de um homem de hábitos muitos simples.